domingo, 25 de janeiro de 2015

CADA UM É GRANDE EM SEU PRÓPIO MEIO



SANNYASI


Se um homem se isola do mundo para adorar a Deus, não deve pensar que aqueles que ali vivem e agem não estão adorando a Deus. Nem os que vivem no mundo dedicados às suas esposas e filhos devem pensar que os que o abandonaram sejam desprezíveis e vagabundos. Cada um é grande em seu meio. Ilustrarei este pensamento com um conto.

Certo rei costumava formular esta pergunta aos sannyiasins que chegavam ao seu país: “Qual é o homem de maior mérito: o que abandona o mundo e se torna sannyasin ou o que vive no mundo e cumpre os seus deveres de chefe de família?”


 Muitos sábios tinham pensado em resolver este problema. Uns asseguravam que o sannyasin era o de maior mérito; porém o rei lhe pedia que provassem esta afirmação. 


Quando não conseguiam fazê-lo, ordenava-lhes a se tornarem chefes de família. 

Outros diziam: “O chefe de família que cumpre seus deveres, é o homem meritório por excelência”. Ao que o rei respondia pedindo provas. Quando não podiam dar-lhes, ordenava-lhes que fossem chefes de família.


Chegou por último um jovem sannyasin a quem o rei dirigiu a mesma pergunta. “Cada um, oh! rei, é grande em seu próprio meio”. Prova-o, disse o rei. “Provar-vos-ei”, respondeu o sannyasin, “porém primeiro deveis vir viver comigo durante alguns dias para que eu possa prová-lo”. O rei consentiu e seguiu o sannyasin fora de seu território. Atravessaram muitos países, até chegarem a um grande reino em cuja capital se realizava uma solene cerimonia. O rei e o sannyasin ouviram o ruído dos tambores e das músicas, e também dos discursos;


O povo estava reunido nas ruas enfeitadas de flores. O rei e o sannyasin pararam para ver e ouvir o que se passava. O pregador proclamava em alta voz que a princesa, filha do rei daquele país, estava ali para escolher esposo entre os que aparecessem diante dela.

Era um antigo costume da Índia que as damas escolhessem esposo desta maneira; cada uma tinha uma ideia sobre a classe de homem que ela desejava para marido: umas preferiam o mais rico, e assim sucessivamente. Os príncipes dos países vizinhos se apresentavam ante ela com suas mais luxuosas vestes. As vezes também se serviam de pregadores que apregoavam suas qualidades e as razões que os levavam a alimentar a esperança de ser os preferidos. 

A princesa era conduzida em seu trono de um lado a outro, com grande pompa. Olhava os admiradores, ouvia suas declarações e se não lhe agradavam, dizia: “Adiante”, esquecendo-se por completo dos pretendentes desprezados. Se, pelo contrário, algum lhe agradava, atirava sobre ele uma coroa de flores, e casavam-se.
A princesa do país no qual o nosso rei e sannyasin tinham chegado, celebrava uma dessas interessantes cerimonias.
 
 Era a princesa mais bela do mundo, e seu esposo governaria seu reino depois da morte de seu pai. O gosto da princesa era casar-se com o mais formoso, porém não encontrava nenhum que a agradasse. Várias vezes já esta cerimônia havia se realizado, porém a princesa não escolhera o esposo. Esta reunião era a mais bela de todas, e a mais concorrida. A princesa surgiu em seu trono, conduzida pelos seus cortesãos. Parecia não olhar para ninguém, e todos começaram a ficar descontentes. Neste momento chegou um jovem, um sannyasin, belo como o sol descendo à terra, e colocou-se num recanto para observar o que estava acontecendo.

O trono com a princesa foi levado até ele, e logo que ela o viu, parou e atirou-lhe a grinalda sobre o peito. 

O jovem sannyasin devolveu-a, dizendo: “Que absurdo é este? Eu sou um sannyasin. A mim que me importa o matrimônio?” O rei pensou que aquele homem fosse pobre e por esse motivo não se atrevia a casar-se com a princesa, e então lhe disse: “Com minha filha te entrego metade do meu reino agora, e o resto depois de minha morte, e pôs novamente a grinalda na cabeça do sannyasin.


 O jovem a devolveu de novo, dizendo: “É, um absurdo. Não preciso casar-me”.



 E seguiu rapidamente o seu caminho. Mas a princesa, que se tinha enamorado profundamente daquele jovem, disse:


 “Se não me casar com ele, morrerei”, e foi-lhe ao encalço.
Então o nosso sannyasin disse ao rei: “Rei, sigamos este par”, e caminharam atrás dele uma distância regular. 


 O jovem sannyasin que havia recusado casar-se, internou-se mato a dentro algumas milhas. Chegou então a um bosque, onde penetrou seguido da princesa, e ambos, por sua vez, eram seguidos pelos outros dois personagens. Mas o cobiçado sannyasin conhecia muito bem o bosque com suas intrincadas sendas, de modo que logo desapareceu, sem que a princesa pudesse descobri-lo. 


Depois de procurá-lo em vão, durante muito tempo, sentou-se sob uma árvore e começou a chorar, pois não sabia como sair do bosque. 
 
 Neste momento nosso rei e o sannyasin se aproximaram e lhe disseram: “Não choreis; ensinar-vos-emos o caminho para sair daqui, porém a esta hora já está muito escuro. Ali está uma árvore frondosa, descansemos sob sua copa, que pela manhã partiremos cedo e vos mostraremos o caminho”.
 
Naquela árvore morava um passarinho com sua companheira e seus filhinhos. O passarinho olhou para baixo, e ao ver os estrangeiros, disse à sua esposa: “Que faremos, querida? Há três hóspedes em casa; faz frio e não temos fogo”. Começou a voar e conseguiu um pequeno tição de fogo; levou-o no bico e deixou-o cair entre os hóspedes que lhe ajuntaram lenha e puderam acender bom fogo. Porém o passarinho não estava satisfeito. De novo disse à sua esposa: “Que faremos, querida? Estas pessoas têm fome e não temos alimentos. Somos donos da casa; nosso dever é dar alimento a todos os que chegam à nossa porta. Devo fazer o que possa, e lhes darei meu corpo”. Dito isto, lançou-se em meio do fogo e pereceu. Os hóspedes o viram cair e trataram de salvá-lo, porém não houve tempo.
 
A companheira do passarinho viu o que seu esposo havia feito e disse: “Aqui há três pessoas, e elas só têm um pássaro para comer. Não é bastante; meu dever, como esposa, é não deixar que tenham sido vãos os esforços de meu esposo. Que os hóspedes disponham de meu corpo também!” E atirou-se à chama, que a queimou.
 
Então os três filhotinhos, ao verem que ainda não era suficiente o alimento para os três hóspedes, disseram: “Nossos pais fizeram o que puderam e todavia não basta. Nosso dever é continuar sua obra. Que vão nossos corpos também!” E se atiraram igualmente ao fogo 



 Assombrados com o que viram, os personagens não puderam, como é lógico, comer aqueles pássaros.
 Passaram a noite sem comer, e de manhã o rei e o sannyasin indicaram o caminho à princesa, que regressou para a casa de seu pai.
 http://www.shri-yoga-devi.org/Blog/imagens/ascetics-vanaprasthas_l.jpg
Então o sannyasin disse ao rei: “Rei, vistes como cada um é grande em seu próprio meio. Se quiserdes viver no mundo, vivei como aqueles pássaros, disposto a qualquer momento a vos sacrificardes pelos outros. Se quiserdes renunciar a ele, sede como aquele jovem, para quem a mais formosa mulher e um reino nada significaram. Se quiserdes ser um chefe de família, fazei com que vossa vida seja um sacrifício pelos demais. Se escolherdes a vida da renúncia, não olheis a beleza nem o dinheiro, nem o poder. Cada um é grande em seu próprio meio; porém o dever de um não é o dever do outro”.



VIVEKANANDA


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